segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Lavagem do Bonfim - Salvador, BA.


Todo o dia 15 de janeiro, na cidade de Salvador, acontece um evento "religioso-cultural" profundamente emblemático. Há uma concentração de pessoas na região do Elevador Lacerda e, em determinado momento, essas pessoas saem em procissão em direção à Igreja do Senhor do Bonfim, onde as baianas do Candomblé lavam a escadaria da igreja.

Estavam presentes o Olodum, o bloco de Afoxé Filhos de Gandhi e tantas outras participações...

Os adjetivos são tantos para o que vivenciamos aqui hoje... Mas, o que mais me tocou de tudo o que vivenciamos em quatro - QUATRO - horas de caminhada sob um sol escaldante e mais de 40° graus de temperatura, por um percurso de cerca de oito quilômetros, foi ver que É POSSÍVEL!

É possível fazer as religiões nos tornar melhores. Abraços afetuosos entre pastores, pais e mães de santo do candomblé, padres, dirigentes espíritas, umbandistas, hari krishnas,  hypes, agnósticos e, provavelmente, ateus. Uma convivência harmoniosa e integrada a um fator determinante: a FÉ! Se você tem fé e está feliz com ela, não precisa dizer ao outro que a fé dele está errada. RESPEITO e HUMILDADE é o que presenciamos! 

As emoções de hoje ainda estão turbinadas aqui e, assim, saúdo a FÉ de quem tem (não a religião)!

Salve a todos e todas Orixás do Candomblé!

Salve a Buda!

Salve a Jesus Cristo!

Salve todas as entidades da Umbanda!

Salve todos e todas santos e santas católicos(as)!

Salve Alah!

Salve todos  e todas mentores(as) do Kardecismo!

Salve ao Universo!

Salve a Deusa Mãe!

Salve Oxalá e o Senhor do Bonfim!


Axé para quem é de axé!

Amém para quem é de amém!

Beijo para quem é de beijo!

Abraço para quem é de abraço!

Aperto de mão para quem é de aperto de mão! 

E AMOR PARA TODOS(AS) NÓS!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Filosofia de Almanaque (II)

 

    Vários estudos biológicos demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que se aquece a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz.

    Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porem vivo.

    As vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que esta tudo muito bom, ou que o que esta mal vai passar - é só questão de tempo. Estamos prestes a morrer, mas ficamos boiando, estáveis e apáticos, na água que se aquece a cada minuto. Acabamos morrendo inchados e felizes, sem termos percebido as mudanças a nossa volta.

    Sapos fervidos não percebem que há a necessidade de um continuo crescimento. É melhor sair chamuscado de uma situação, mas vivo e pronto para agir.

    Que tipo de “sapo” você tem sido? E o mais importante: que tipo de “sapo” você QUER SER?

quarta-feira, 3 de abril de 2024

As borboletas

Gosto das lições das borboletas.

A beleza delas não é uma imposição. É um presente. Quem tiver sensibilidade suficiente que aprecie. Ou não. Elas estão lá da mesma maneira.

Há quem tenha medo delas.

Há quem as venerem.

Há quem as tatuem.

Há quem as evitem.

Há quem as matem.

Há quem as eternizem em fotografias.

As borboletas que são belas não são forçosamente esnobes. Aquelas que não são belas, da mesma maneira, não são inferiores. Elas são. Apenas isso.

Quando são.

Enquanto são.

Não há artificialidade em sua existência.

São frágeis. São indefesas. São mansas. Nada mais. Nada menos.

A existência delas depende de um processo demorado e necessariamente difícil de rompimento de casulo. 

É preciso ainda considerar que são a materialização do significado visível da trans-for-ma-ção. Uma lagarta que se renova. Transforma-se. Transmuta-se. E, como se este processo já não bastasse, ela deixa uma condição de rastejante para atingir a condição de alada. Isso significa que sua mudança, sua transformação acontece em direção a um aspecto evolucionário. Ela não impõe isso a ninguém. A não ser a si mesma. 

O que é bom para ela não é imposto. É apenas bom para ela.

Quem quiser, que se transforme.

Quem não quiser, que rasteje.

E admire!

sábado, 2 de março de 2024

Ah, piá!

Hoje eu me lembrei de um menino, muito jovem, que chegava em Cascavel, no Paraná, há vinte anos... Caraca, vinte anos já! Duas décadas! 

 

Uma mochila que servia de mala, uma sacola de livros, um colchão de solteiro enrolado e amarrado com fio de varal, e completamente apavorado por desbravar uma etapa nova da vida em uma terra completamente estranha para ele. 

 

Os medos e as incertezas vinham ciscando atrás, sempre fortes e se multiplicando rapidamente. 

 

Quantas lágrimas noturnas foram sua oração antes de dormir. Era visível o turbilhão de emoções que aquele menino carregava no peito. 

 

A aprovação no vestibular de uma excelente universidade pública (Unioeste) foi o pretexto para vir, mas a necessidade de sobreviver a si mesmo e por si mesmo sempre foi o seu maior motivo. 

 

E lá se vão vinte anos completados essa semana... A vida, de fato, passa muito rápido! 

 

Tantas coisas, tantas pessoas, tantas histórias ficaram para trás... Depois de um tempo a gente descobre que nem tudo e nem todos são bagagens que seguirão viagem contigo, e sim âncoras! E âncoras podem deixar você estagnado. Aquele menino teve que quebrar muitas correntes que o afundavam lentamente. 

 

Se eu pudesse, correria na rodoviária de vinte anos atrás e daria um abraço muito apertado naquele menino. Apesar do atraso de quatro horas do ônibus fedorento. Mal sabe ele que algumas lições vão custar bem caro... E quanto conhecimento e aprendizado conseguimos juntos! 

 

Aquela terra estranha, que nunca lhe deu absolutamente nada de graça ou fácil, hoje é a sua casa. 

 

Eita, que saudade daquele menino... Hoje, eu e ele sabemos quanto valor tem um pãozinho com café em nossas vidas, heinl  

 

Ele tinha coisas, naquela época, que eu já não tenho! Eu sou, hoje, o homem que ele batalhou tanto para ser!

 

Ah, piá do dianho! 


domingo, 8 de outubro de 2023

Café Bethânia

 

Ouvir Bethânia no domingo de manhã me dá uma sensação tão confortável de ter vencido na vida...

Hoje, a manhã chegou dengosa, com chuva forte e tranquila, como um amante que sabe a intensidade que deve empregar na pegada para não ser meloso, mas deixando a vontade de querer mais. Toda silenciosa e úmida, me despertou com aroma de vontade de viver. Perdi o sono.

Levantei.

Ritual sagrado e cotidiano de reverenciar a vida com um café da manhã sereno. Minha forma de agradecer a vida é respeitar o meu despertar todas as manhãs. Faço meu café, observo a tranquilidade do dia nascituro, sou invadido com intensidade e doçura por uma gratidão genuína e luminosa. Isso me faz vivo. Torna-me grato.

Todos os dias, as obrigações incessantes, os compromissos famintos, os horários a serem obedecidos. Todos os dias. Não antes do café sagrado. Não antes de deixar a minha consciência reconectar-me com o que me importa, verdadeiramente.

Hoje não.

Hoje é domingo.

Domingo é dia de esquecer que existe relógio. Porque o tempo cronológico é capataz do desperdício. A vida que mingua minuto a minuto regando todas as vivências que vamos derrubando pela estrada. Cada passo do ponteiro é um plano, um sonho, uma intensão, uma vida inteira que fica pelo caminho, à espera da colheita que nunca se faz.

E Bethânia floreia meu coração.

O café fumegando na caneca, cirandando o balé da tranquilidade com que me presenteia o domingo. A chuva cadenciando as batidas do meu coração. E Bethânia acarinhando a minha alma com sua voz, sua arte, sua grandeza tão naturalmente despretensiosa. Ouvir Bethânia no domingo de manhã me traz a sensação tão quentinha de ter vencido na vida. Porque, para mim, ser bem sucedido é exatamente isso: alcançar a capacidade de colher a grandeza de apreciar uma canção na voz de Bethânia na paz de um domingo de manhã cheirando a café fresco. O dia hoje está tão Bethânia! O resto? É só resto...  


segunda-feira, 24 de julho de 2023

Quem sou eu no espelho?



    Há alguns dias tenho pensando muito acerca do poder que damos às pessoas sobre a nossa vida. Um poder que elas não têm. Sempre odiei imensamente a palavra “aceitação” e as expressões que surgem com o seu emprego como, por exemplo, “temos que aceitar o jeito como o fulano é”, ou “aceito meu filho plenamente”, ou, ainda, “ela é assim, mas temos que aceitá-la”. Ao ouvir essas frases, ao longo da vida, me perguntava: em que momento alguém deve pedir para ser aceito? Quando tive oportunidade, por inúmeras vezes, conversei sobre isso com as pessoas e até questionei quem age dessa maneira “aceitando” ou não os demais.

    Com certeza, o fato de ser um homem gay colaborou diretamente para essa minha ojeriza em relação tanto as expressões cerceadoras quanto as atitudes de quem age assim. Quando alguém diz que aceita o fato de alguém ser gay, lésbica ou transsexual está embutido nesse discurso, a superioridade intrinsecamente relacionada ao modelo de sociedade falocêntrica que fazemos parte e que ajudamos a ser excludente, violenta, assassina e odiosa. Aceitar ou não alguém por qualquer que seja sua característica é impor condições à existência do outro. É se considerar superior a quem deve ou não ser aceito. E quem é que precisa ser aceito? Quem define as condições? Se a resposta for a bíblia, então, se faz necessário um contra-argumento: a bíblia só é válida para quem acredita nela. E quem acredita nela não é superior, em nenhum aspecto, em nenhuma medida, a quem não acredita.

    O poder que damos às pessoas de nos fazer mal é grande demais. E não deveria ser. Não precisa ser. Ter que ser aceito pela família, por colegas de trabalho, por membros de determinadas comunidades é estabelecer o domínio do poder na mão do outro e não em si mesmo. Infelizmente não somos ensinados a ser pessoas de amor-próprio elevado, de autoestima suficiente, de raciocínio, sentimentos e criticidade capazes de nos proteger de olhares, de julgamentos, de comentários velados, de juízes da vida alheia.

    Sempre fui muito reservado quanto a minha vida particular, pessoal e amorosa. Nunca estive dentro do armário, mas nunca anunciei minha sexualidade em panfletos informativos ou em conversas reveladoras nas quais pedi permissão para alguém para ser quem eu sou. Sou o que sou e ninguém tem nada a ver com isso. Sou quem eu sou e não peço permissão nem peço aceitação de ninguém. Não pedi licença para existir e não vou fazê-lo jamais. Não preciso ser aceito ou aprovado. Não dou esse poder a absolutamente ninguém. Nunca, nenhum amigo ou familiar veio conversar comigo para assumir sua heterossexualidade. Por que, então, eu deveria prestar contas da minha homossexualidade para as outras pessoas? É bem fácil perceber a subjugação implícita no discurso e na atitude heteronormativos e, consequentemente, o reflexo danoso, devastador na formação de crianças e adolescentes que sofrem por anos seguidos por pensarem que são errados, que estão condenados ou que não poderão exercer sua existência livremente porque alguém decidiu que sua vida está condicionada às regras que a oprimem, a humilham, a maltratam e até, potencialmente, a assassinam.

    Cresci ouvindo a palavra “viadinho” como pejorativa, como sinônimo de aberração, como ofensa e menosprezo. Não era direcionada a mim, de forma direta. Mas, machucava do mesmo jeito. Até hoje ouço isso dessa mesma maneira e, por diversas vezes, das mesmas pessoas que me machucavam na infância. Lembro do primeiro rapaz que beijei. Já éramos adultos. Tanto eu quanto ele tínhamos dezoito anos. Morava na casa dos meus pais. Até hoje me recordo do pavor que me assolou pensar na reação dos meus pais ao descobrirem que um dos seus filhos era assim. O pavor era real. Embora tenha sido maravilhoso expressar o meu jeito de ser pela primeira vez com aquele moço, o medo, a angústia e a necessidade de tentar não ser eu mesmo, de tentar mudar a minha essência – para não decepcionar os meus pais – eram imensas. E eu sofri. Sofri muito.

    E quantas pessoas não sofrem? Por ter um peso fora dos padrões de aceitação social. Por cabelos que não atendem ao padrão de alisamento necessário para ser considerado bonito. Mulheres que decidiram não ser mães. Homens que entenderam que são mais felizes solteiros. Pessoas que quebraram, de alguma maneira, o que é esperado delas...

    Hoje, o poder de ser quem eu sou está em mim. Em ninguém mais. Quem me define sou eu. Quem decide que rumo seguir em minha vida sou eu. E, depois de um tanto de vida e de muita busca por amadurecimento, descobri que sou a única pessoa que tem o poder de me aceitar. Então, está declarado: o poder de aceitação da minha existência não é de ninguém mais além de mim. Sou o único a quem devo recorrer para me aceitar. Eu me aceito. Eu me empodero. E, com isso, eu retiro de todas as outras pessoas do planeta o pseudo poder de me aceitar ou não. Não sou uma caricatura moldada por todas as aceitações ou reprovações ao longo da vida. Eu me vejo como eu sou e sei quem sou eu no espelho.



quarta-feira, 19 de julho de 2023

Mensagem Apagada


    
  Hoje de manhã coloquei algumas músicas para tocar, despretensiosamente. Em certo momento, uma voz de extrema potência, força e delicadeza misturadas invadiu o ambiente e a música me arrebatou os pensamentos já nos primeiros acordes. “Troca de calçada” é o nome da canção e Marília Mendonça era o nome da moça que a escreveu e a cantava em minha playlist. Para quem não conhece a música, a letra trata de uma mulher julgada e condenada pela opinião alheia que não conhece a história de vida dela. Quando chega no refrão, a narrativa assume a primeira pessoa do singular e se dirige diretamente à pessoa que aponta o dedo e troca de calçada ao vê-la oferecendo seus favores sexuais em troca de algum dinheiro.

    A mensagem da música tocou profundamente o meu coração e eu pude, por um longo momento, sentir a tristeza daquela moça que, para ter o corpo quente congelou o coração e para esconder a tristeza usou maquiagem à prova d'água. E eu chorei. Eu sei, é fácil me fazer chorar. Choro assistindo até comercial de margarina. Confesso e assumo que a minha emoção aflorada desagua com peculiar facilidade. Não é, entretanto, a natureza das minhas características o alvo deste texto. O que senti, provocando minhas lágrimas, foi a dor do julgamento. Esse é o ponto.

    Você já parou para pensar se conhece a história de vida das pessoas ao seu redor? Você conhece, de fato, os sentimentos, as emoções, os acontecimentos que levam as pessoas que você ama e que te amam a ser como são? A música escrita e cantada por Marília aconselha o seguinte: “Se alguém passar por ela fique em silêncio, não aponte o dedo, não julgue tão cedo, ela tem motivos pra estar desse jeito.”

    Pensar sobre isso me remete ao dia onze de julho, dias atrás, data do meu aniversário. Era um dia comum, meio de semana, a vida seguindo seu fluxo como tem que ser. Uma temperatura agradável, embora seja inverno. Poucas nuvens impediam o sol de exercer suas funções, eu curtia uns dias de férias do trabalho e, embora tivesse muitas coisas para fazer, decidi ir pedalar. O pedal é terapêutico para mim. Quando vou sozinho, uso fones e músicas para me isolar dos ruídos ao meu redor – o que pode ser muito perigoso, diga-se de passagem! Uma atividade que me coloca em contato com o mais profundo do meu ser. E isso é maravilhoso. Naquele dia do meu aniversário foi exatamente assim. Depois de quase três horas pedalando, voltei para casa e, ao verificar o meu celular, encontrei uma “mensagem apagada” no aplicativo de conversa.

    Quase dez dias se passaram da data do meu aniversário e aquela mensagem continua lá, apagada. Mensagem apagada. De alguém que exerce uma função muito importante dentro do meu contexto familiar. O que alguém quer dizer para você no dia do seu aniversário ao te enviar uma mensagem, apagá-la e deixar essa mensagem apagada como a única expressão concedida a você? Obviamente que eu deveria explicar muitos outros elementos para que o contexto desse fato ficasse em melhores condições de compreensão. Não vou explicar.

    Aquela mensagem apagada é uma troca de calçada. É assim para mim, pelo menos. Da mesma maneira como na canção de Marília, o nojo na cara de quem atravessa a rua ou o desprezo de quem escreve uma mensagem no dia do aniversário da outra pessoa e apaga, propositalmente, poderia ser substituído por um abraço – ainda que distante geograficamente – e o não julgamento que apedreja e dói na alma. E, a única pergunta que fica tilintando em minha mente, como as pontas do salto 15 na calçada, é: por quê? Por que gastar energia com preconceito, com retrucada, com mágoa, com implicâncias... com trocas de calçadas e mensagens apagadas? Algo que fora intencionalmente não dito me mostra tanto, tanto, tanto sobre quem mandou a mensagem e apagou para que eu visse algo ofertado a mim e, em seguida, retirado. O espinho cravado em meu coração sangrou. E o sangue irrigou o espaço afetado e abriu a possibilidade de uma semente ser semeada ali. Dizem que só oferecemos aquilo que temos em nosso coração. Ofereço, então, com todo o meu coração, as flores que nascerem dali a quem trocou de calçada e me enviou uma mensagem apagada.




quinta-feira, 14 de julho de 2022

Indiretas e Alfinetadas


        Lembrei-me dia desses da fábula de Esopo, chamada “O Caçador Medroso e o Lenhador”, ao refletir uma frase comum que vejo com frequência no Facebook: "se fulano (a) saiu da minha vida foi livramento!". Como humilde filósofo que sou, faço a seguinte questão: é livramento de quem? Já parou (provavelmente não) para pensar que, talvez, quem se livrou foi quem saiu da sua vida? Por que o problema é sempre o (a) outro (a)? Ou você considera que a pessoa não é digna da sua presença ou você acredita verdadeiramente que é muito superior a quem te cerca. 

    Outra questão: você prensa que quem saiu da sua vida saiu por que não tem caráter ou por que não te considera importante? Ou essa pessoa se foi por que você não a cultivou perto de ti? Talvez você ficou tanto esperando que essa pessoa viesse, ou lhe enviasse mensagens, ou que se mantivesse perto de você que não percebeu que quem não mandou mensagem, quem não ficou próximo (a) foi você! As relações humanas são como ruas de mão dupla. Ou seja, o mesmo caminho que traz alguém até você pode levar você até ele (a). 

        Há algum tempo comecei a perceber, na minha própria vida, que se eu não mandasse mensagens para as pessoas que amo quase nenhuma delas se lembrava de me mandar. Mas, eu sempre fazia isso... E no momento em que eu parei de cultivar as pessoas perto de mim, elas começaram a se distanciar. Mas, nem por isso, fui a redes sociais dar indiretas ou alfinetadas... Amo amigos, amigas, pessoas da minha própria família, que hoje em dia são extremamente distantes de mim. Mas, não foi livramento nem meu e nem delas. Foi falta de cuidado mútuo, de zelo, de manutenção e, talvez, de parar um minuto e lembrar que algum dia a saudade será permanente, irreversível. Anne Frank diz em seu diário que os mortos recebem mais flores do que os vivos porque o remorso é maior do que a gratidão. Quem mais me cobrou ou cobra a minha presença é quem menos faz para estar presente. 

        Então, a mesma energia gasta em escrever em rede social ou em pensar que algum ser  superior livrou você de alguém, poderia ser usada para escrever para essa pessoa que está fazendo falta (porque está te fazendo falta, ou não haveria indireta em Facebook) e dizer que você a ama, que está com saudade, que sente a falta dela. Quando uma flor está secando não se recupera com pisadas ou ofensas, e sim com cultivo, com cuidado, com dedicação.

        Agora, se está confortável para você ficar agarrado (a) no orgulho, na soberba, na arrogância, na mesquinharia de achar que você é tão melhor do que as pessoas das quais alguma divindade está te livrando, daí são outros quinhentos!



Sobre o Que (me) Importa!

 

Cemitérios me incomodam. Nunca gostei de ir e evitei mesmo, sempre que pude, para não estar presente em um. Não, não tenho medo dos mortos. Tenho sim muito respeito por tudo o que eles me fazem pensar quando estou a visitá-los. Aquele silêncio tumular faz gritar a quantidade de tempo perdido que se deixa pelo caminho, na vida. Não me refiro ao tempo em que se está trabalhando, estudando, produzindo de alguma maneira. Não! É o tempo que se gasta com outras coisas. Em um cemitério o que fica evidente é a queda dos rótulos. É clichê, mas é verdadeiro. Doutor e analfabeto, rico e pobre, jovem e adulto, negro e branco, ateu e cristão têm o mesmo repouso. Quanto ao que está do outro lado – se há outro lado – que cada um sinta e viva a fé que lhe conforte. Respeito a todas. E não quero falar aqui sobre o depois da morte. Quero falar sobre o antes. Não me importa o caminho depois do túmulo, mas os passos que se dá até chegar nele.

Se você morresse hoje, iria suficientemente satisfeito consigo mesmo por ter dito à todas as pessoas que você ama o quanto elas são importantes para você? Eu não. Se você morresse hoje, iria suficientemente satisfeito por ter ouvido das pessoas o quanto elas te amam? O quanto você é importante para elas? Eu não!

Ultimamente tenho refletido sobre o amor e sobre como ele está sendo manifestado. Não quero deixar para depois para dizer às pessoas o quanto elas são importantes para mim. Porque flores em um túmulo e homenagens póstumas são tardios. São atrasados. O que me importa mesmo é o calor das palavras e a emoção do olhar. Isso é impagável. É insubstituível. E, para quem me disser que a mudança que queremos no mundo começa por nós mesmos, vou dizer: “você está certo”!

Talvez por covardia ou por desmedida fraqueza não fui ao funeral de duas das pessoas que eu amava imensamente. Fiz isso por querer acreditar que naqueles caixões não estavam mais as pessoas que eu amava. Elas já tinham ido embora. Em ordem cronológica de partida, uma dessas pessoas foi meu grande amigo de infância. A outra foi a minha Nona Antônia, de quem já havia me despedido meses antes por causa da doença que a levou devagar. Mas, meu amigo João foi cedo e inesperadamente. Há quase vinte anos. Sem aviso. Sem tempo para despedidas. Sem anúncio ou cerimônia... Passávamos muito tempo juntos. Conversávamos sobre tudo e com muita honestidade um com o outro. Conhecíamo-nos verdadeiramente. Cada um sabia o que o outro pensava e porque pensava. E quando João se foi percebi que, por estarmos sempre juntos, nunca havia dito a ele o quanto ele era importante para mim. O quanto a amizade dele me resgatou de uma anunciada escuridão solitária e devastadora. João se foi sem nunca ouvir de mim que ele era um amigo querido, amado e precioso. Ele sabia disso. Mas, nunca ouviu! Não quero mais saber. Quero ouvir.

Ver o amor perder força, cor e oportunidade por motivos tão mesquinhos me entristece e me coloca a refletir. Estou falando dos rótulos! Lamento os rótulos. As classificações! Rotular e classificar as pessoas ao redor e determinar suas importâncias a partir disso. É mesquinho. São as ervas daninhas que envenenam pouco a pouco o tempo que deveríamos deixar manifestar o amor. Amar é precioso. Ruim é classificar quem deve receber o amor. Afastar alguém porque essa pessoa é de outra religião, raça, classe social ou orientação sexual é praticar o desamor. Somos seres humanos e qualquer outro adjetivo que vier depois disso é desnecessário, menor, castrador. Afastar-se de um ser humano considerado diferente é desmedidamente infeliz e aviltante. É matar a beleza de querer bem e sentir alguém habitando o coração. Meu coração sempre foi muito frequentado. Muitas e muitas pessoas estão ou estiveram aqui. E não quero deixar um túmulo ser a sala de visitas onde vou receber essas pessoas para dizer que as amo e que são importantes para mim. A vida é agora. É hoje. É urgente. Viver é urgente. E é urgente manifestar o amor.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

FotOPoEmA!

 
Crédito da Fotografia: Whesley Fagliari

 
Apontei
 
Minha câmera
 
Disparei
 
Inconveniente
 
Capturei...
 
Seu repouso
 
Indecente
 
E ele
 
(Ou ela)
 
Esnobemente
 
Exibiu
 
O que a natureza
 
Deu-lhe
 
E eu
 
Humanamente
 
Simplesmente
 
Poeticamente
 
Admirei...
 
  

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Bruta!


Crédito da Fotografia: Whesley Fagliari


Gosto da brutalidade da vida.
 
 
 Que seca as folhas.
 Mas traz o broto.
 
 Que finda as paixões.
 Mas permite o amor.
 
Que desassombra o descanso.
 Mas prepara a colheita do fruto.
 
 Que destelha o abrigo.
 Mas fortalece os caminhos.
 
 Que fragiliza a flor.
 Mas rega a semente.
 
 Que desgoverna meu coração.
 Mas amanhece o aprendizado.
 
 

sábado, 5 de setembro de 2015

Epifania (Demoras Ancestrais)

 
Fonte da Imagem: Google Imagens - Tema: Metafísica
 
Não vou morrer de meras fantasias
Não! Eu vou ser tragado por cruezas
Pela carne viva pulsando em sangrias.
Necessito da urgência das belezas

Não aquelas de vitrine, tão perfeitas
Plásticos com sabor de nada, vaidade.
Mas, as repletas de erros e refeitas
Com carga colorida de humanidade!

Amanhã é um tempo longe demais,
Nunca chega! E demoras ancestrais
Transformam brisas em vendavais!

Em mim há uma dimensão epifânica
Astronômica, quixotesca, nuclear
Ultra-sônica, novelesca, estratosférica!

Um ser exaurido e exausto de si
Que se recusa a sucumbir!

Só por isso! Somente assim!
 
 
 
 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Pressa da Mente


Crédito da Fotografia: Whesley Fagliari


Muito mais que de repente

Desperta-me um detalhe

Um minúsculo centímetro...

Ou dois... Tá! Talvez três 

De vermelho um intenso
 

No (meu) mundo estrangeiro

 Imediatamente ali fora

Da (minha) janela espiando

Observatório silencioso

Olhando-me bem fundo

Nos olhos da alma dos olhos

Nos meus olhos distraídos


 Ah! Um visitante forasteiro

 Viajante nômade aventureiro

Colocou meus pensamentos

Descompassados a funcionar

Mais do que apressadamente!

A pressa da mente me mente!


 Aquele pequenino veio me mostrar

 Que o que é gigante que ele tem

Nas asas a deslumbrar no ar

Eu tenho a me desacalmar no olhar:

A imensidão do poder de voar!

 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

FoTopOeMa!


Crédito da Foto: Whesley Fagliari
 
O dia parecia bravo
 
Mas havia luz.
 
O céu parecia triste
Mas tinha paz.
 
O sol parecia distante
Mas era só descanso.
 
O pássaro parecia folha seca
Mas era só silêncio.
 
A árvore parecia morta
Mas era só disfarce.
 
Crédito da Foto: Whesley Fagliari

sábado, 16 de maio de 2015

FoTOpoEMa!


Crédito da Fotografia: Whesley Fagliari


A minha
Necessidade
De silêncio
já desgastou
As musicas
Que ouço

A minha
Capacidade
De voar
Já arranhou
A liberdade

A minha
Lucidez
Desmedida
Já comprometeu
Meus horizontes

O que vejo
E percebo
Já são
Outra coisa


Crédito da Fotografia: Whesley Fagliari


~ : : ~

Salve, Amigos da Sofia!

Hoje trago um pouco mais da minha paixão em fotografar. Registrar momentos, inspirações, imagens, cenários. Poesia visual que alimenta também a minha alma com encantos que não precisam explicar. São autoexplicativos! São quase autossuficientes... A única coisa que lhes falta é um espectador. Um olhar cuidadoso, curioso. Uma alma sedenta de beleza não estética... E pelo caminho lá estou eu. Perdido entre um pensamento e uma emoção, mas com minha câmera na mão. Que a alma de quem por aqui passar seja tão completamente tocada como a minha.

Luz e Paz!

domingo, 29 de março de 2015

Eu Também Me Rendo, Pequena!




Um fotógrafo capturou nesta sexta-feira (27), na Síria, a imagem de uma criança que se rendeu em frente sua câmera. Segundo informações do site Huffington Post, a pequena levantou os braços ao confundir a câmera com um rifle. O fotógrafo que registrou a imagem queria retratar a realidade das crianças sírias, e não imaginou que a menina iria pensar que ele estava apontando uma arma para ela. (Fonte: Site R7)

~::~

Eu também me rendo ao dissabor

Eu também me entrego à luta

Eu também quero sorrir até na dor

Eu também preciso manter reta a conduta.



Eu também me rendo à sua inocência

Eu também me curvo à sua luminosidade

Eu também defendo seu direito à infância

Eu também sofro pela ausência da dignidade.



Eu também sinto falta da tolerância, da pureza

Eu também me curvo cansado de brutalidade

Eu também cultivaria um jardim de gentileza.



Eu também lamento o seu e o meu pavor

Eu também sofro pelo ódio matando o amor

Eu também me rendo e quero um mundo melhor.