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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Casa de Permanência!





Madrugada. Fria. Muito fria. Carol cansou de esperar o sono que se esqueceu de encontrá-la. Ela se levantou. Desceu até a garagem do prédio onde morava. Ligou seu carro popular. Ainda estava a pagar. Graças a Deus! Em pesadíssimas prestações. Um carnê que não terminava nunca. Sair dirigindo sem destino certo sempre fez muito bem à Carol. Hoje ela precisava mais do que qualquer outro dia. Saída da cidade. Estrada. Relâmpagos. Colocavam fim ao repouso do horizonte silencioso. Uma tempestade bem próxima. Parecia anunciar ao mundo que se ela, Carol, não havia conseguido dormir, ninguém mais conseguiria. O dia anterior ainda cavalgava em seus ombros retesados. Trovões. Ruídos que lembravam Carol das inquietações de seu próprio espírito. Gargalhadas. Uma música qualquer tocando no rádio do carro dava a pincelada final. O retoque necessário para a completude da cena. A cena de sua vida. Parecia ópera. A vida que Carol cobrava como um juiz diante de seu acusado. E as respostas que ela procurava escorriam por entre os dedos de seus pensamentos agora molhados pela chuva inescrupulosa que desabava a ironia da insignificância em cima da solitária motorista sem rumo. Havia uma alegria. Desmedida. Uma urgência em aproveitar cada instante daquela mesma existência que a perturbara tanto. Sempre. Entrelaçada às gargalhadas apareceu a cantoria. E Carol cantava. Sem conhecer a letra da canção que tocava. Sair de madrugada dirigindo sem rumo. Alegrar-se com temporais. Negar-se a fazer uso de qualquer tipo de substância psicoativa ou álcool. Não se tratava de insanidade. Demência. Sua felicidade era crua. Regras quebradas. Bem-estar gratuito. Normas sociais rompidas. Padrões de comportamento reinventados. Autenticados. Estar viva e sentir-se assim. Apenas! Sem outro motivo. Era o que acontecia com Carol. Lembrou-se que perto dali existia um lago onde gostava de ir para respirar a natureza. Parou o carro no ponto exato da estrada. Saiu na chuva e a temperatura baixíssima da água invernal por muito pouco não congelou Carol. Mas ela correu. E lutou. E venceu o frio. Gargalhou. Cantou. Correu. Livre. Sozinha. Na madrugada desesperada que testemunhava aquela algazarra. O lago rendido e sereno recebia a tempestade em coito consentido. E agora Carol integraria aquela cópula. Sem pestanejar despiu-se das roupas do corpo e das sombras da alma. E mergulhou. Sua carne imediatamente sucumbiu ao impropério ato impensado. Congelante. Carol nunca se entregaria a nada que não quisesse de fato. E sua alma flamejou labaredas de tamanha alegria e lascívia que não houve alternativa se não ficar bem. E nadou. E sentiu a água bravia da chuva desgovernada encontrando a serenidade do lago senil. Gargalhou. Muitas lembranças de tantas vivências dançaram com a mente de Carol. Ora chorou, ora sorriu. E nadou. E gargalhou. E cantarolou desafinadamente músicas que não existiam. E de repente, inesperadamente... Um grito! Seu nome. Carol. Mas não era sua voz. Nem sua garganta. Era o sono. Chegando. Carregado pelo cansaço da emoção aventureira. E das energias do corpo se esgotando. Carol, você me venceu... Gargalhadas. Um último mergulho. Frio. Canção. Gargalhada. Estrada vista pelo ângulo da volta. Volta. O retorno. Ao que nunca fora. Nunca! Canção. No rádio. Gargalhada. E, ao voltar para casa, Carol adormeceu com um sorriso definitivo nos lábio. Definitivo. Um sorriso nos lábios. Proveniente de sua coragem, casa de permanência, residência de sua alma! 

 
 

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video

 

2 comentários:

  1. Maravilhoso meu amigo.. Tens realmente o poder de escrever... Parabéns.. muito muito lndo

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    Respostas
    1. Edi, minha linda amiga,

      Que surpresa maravilhosa abrir meu blog e encontrar você por aqui. Seja muitíssimo bem vinda! Obrigado pelo apoio sempre... O carinho de pessoas tão especiais como você em minha vida é muito importante.

      Luz e Paz!

      Abraço forte de amizade e respeito! Bjs!

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"O que você não pode eu não vou te pedir e o que você não quer eu não quero insistir..." (Humbeto Gessinger)

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