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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Rotações Estáticas

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Matei um gato.

Não foi culpa minha. Ele correu na direção do meu carro. Amo animais. Ironicamente... Amo! Mas, eu não consigo escrever sobre isso. Quis muito falar. Uma maneira de dizer a ele - o gato atropelado - que não tive a menor intenção de fazê-lo sofrer. Nem tampouco matá-lo. Mas, não houve tempo. Um olhar para o lado. Um gato correndo. Feliz. Brincalhão. Uma colisão. Um solavanco. O veredicto do retrovisor. A morte. O corpo. Asfalto fervente. E os outros carros vindo atrás me impedindo de parar. Não parei. Chorei. Quis dizer a ele que sentia muito. Mas não pude. Não consegui. Paralama quebrado. Coração dolorido. Lágrimas impotentes.

Não consigo escrever sobre isso.

O dia começara bem. Noite feliz abraçado ao corpo que eu desejava estar ali comigo. E estava. Passara a noite toda. Sorrisos de bom dia. Sol nascendo calmo. Anúncio de dia tranqüilo. Sereno. Pacífico. Feliz. E nem imaginei que o dia também me traria um encontro com a morte. Corri. Matei. Sofri. Não quis fazer, mas fiz. E não é possível voltar lá e reanimá-lo... E quantas coisas na vida são assim? Quando se olha pelo espelho o que está estirado na estrada da existência são corpos de coisas que atropelamos e não conseguimos ressuscitar.

Não consigo escrever sobre isso.

Tentei fazer poesia desse acontecimento. Não pude. Pensei em conto, crônica, soneto, hai-kai, repente, canção... E não consegui produzir absolutamente nada. Sequer uma linha. Quero exorcizar o fantasma daquele gato do meu coração. Para descansar em paz. Ele. E eu. Mas, ele não vai embora. Fica entrelaçando minhas pernas. Fazendo carinho. Ronronando. E o sentimento que carrego é o de culpa. O gosto de sangue nas mãos ao volante. O corante. O rubro visgo das lágrimas arrependidas de quem não tinha nada - absolutamente - nada o que fazer.

E não consigo escrever sobre isso.

Só penso.

Todos os dias.

Penso.

É só um gato. Mas não é simples assim. É o ato. O fato. E isso basta para ser assim. Ouço psicodelicamente a voz daquele gato sentado no banco do carona, ao meu lado, me ensinando coisas da vida... Enquanto dirijo. Olho para o lado, ele está usando o sinto de segurança, óculos escuros, cigarro aceso queimando ao sabor do vento, pata para fora da janela aberta, pernas cruzadas e uma feição muito madura de quem está prestes a ensinar lições da vida. E ensina. Ensina-me. E não descansa. Não segue em frente. Não me deixa acalmar minha consciência. Há lições a aprender. Sobre isso. Sobre correr demais. Sobre onde querer chegar. Sobre o que há à beira da estrada. Sobre horizontes. Sobre rotações estáticas. Aquelas em que alguém roda, roda e não sai do lugar. Mas, não ouço a voz daquele gato. O que matei. Em uma estrada ao sol do meio-dia. E nunca mais passo por lá sem vê-lo ao meu lado. De carona! Prestes a me ensinar. Mas, não me ensina. Eu tento. Eu peço. Porque assim, talvez, minha culpa morra com ele. Mas não morre. Minha culpa sim tem sete vidas. Aquele gato não.

E não consigo escrever sobre isso.



6 comentários:

  1. Amado... embora tenha acontecido a fatalidade, que realmente dói em ambos, vc não teve a menor culpa, e como disse, ele estava tão tranquilo brincando que os anjinhos dos gatos o levam em paz. E sim, muitas coisas atropelamos pela vida, passamos tão rápido que nem olhamos pelo retrovisor, outras, nos atropelam e nos deixam ali, paralisados, sem voz, sem nós. Mas, a estrada continua e temos que seguir.
    te amo, meu irmão querido.

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    1. Minha querida amiga-irmã,

      Lindas as suas palavras. Obrigado por trazê-las aqui no Sofia e enriquecer essa publicação com tão grande energia boa que cintilas... Amo vc tb! Bjs!

      Luz e Paz!

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  2. Não sei se pelos acontecimentos do meu dia, ou se por ti ou pelo gato,não sei,fiquei triste ...Um sonho-Amor acalentado a alguns anos,a esperança tardia,a presença que não veio,as promessas tantas vezes prometidas e nunca confirmadas...Meus olhos buscaram preciosas lembranças que à semelhança do gato da tua história(pobrezinho!)foram atropeladas pelo carro veloz do Tempo e ficaram estiradas,sem vida, na minha estrada cigana.Fiquei triste por ti,pelas minhas recordações e pelo gato inesperado no teu caminho.Um beijo carinhoso e leve como uma bolha de sabão irisada pela luz e soprada pelo vento!

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    1. Minha linda ciganinha gigante por talentos e cores tão únicas,

      Que Deus abençoe vc sempre e que os acontecimentos do seu dia sejam todos voltados para o aprendizado e para o crescimento... Seres tão reluzentes como vc só tem uma escolha: crescer. E fazes isso tão lindamente que seu crescimento reflete em suas artes (plurais)... Fiquei muito triste por aquele gatinho tb, mas logo a dor deu lugar ao aprendizado... Desejo que seu dia hj seja assim tb.

      Te amo mto, mesmo de longe!

      Um beijo de carinho, um abraço de luzes da amizade tão pura e forte que há entre nós.

      Luz e Paz!

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  3. Há encontros que mudam o dia, mudam a direção, mudam nossos pensamentos, mudam nossa disposição, mas nada que acontece em nossa vida é ruim se não houve uma intenção ruim. O que aconteceu foi um lamentável acidente que não te deu qualquer chance de agir de forma a impedi-lo. A cabeça da gente pira, o coração desmancha, a culpa escava um buraco na alma e enche de dor, mas a verdade é que vc não teve culpa alguma. Acredito que todos nós, homens ou animais temos nosso tempo nessa terra de Deus e nossa partida está nas mãos Dele.
    Talvez, como vc disse, haja uma lição nesse acontecimento, um aprendizado. Aproveite-o com consciência. Mas pare de sofrer. VC não merece ficar se punindo. E pra quem não consegue escrever, seu texto ficou maravilhoso e emocionante.
    Tive um gato preto igualzinho a esse e que foi meu grande amigo e companheiro por 14 anos.
    Beijo.
    Sigo com vc.

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    Respostas
    1. Querida Caroline,

      Seu comentário me trouxe energias muito especiais ao coração. Muito obrigado, com toda a minha sinceridade. Também acredito em coisas que você mencionou em seu texto. Fato! Meu coração e meu espírito já estão bem mais leves.
      Obrigado pelos conselhos preciosos.
      Obrigado pelo comentário magnífico.
      Obrigado pelos elogios verdadeiros.
      Obrigado pela presença tão importante.

      Sigo com vc tb!Beijo!

      Luz e Paz!

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"O que você não pode eu não vou te pedir e o que você não quer eu não quero insistir..." (Humbeto Gessinger)

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