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Milhões de horas

Para a poesia que aflora

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Transliteração


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Tales precisa escrever. Voltar a escrever. Com desespero. Com urgência. Com entrega. Como fazia quando era jovem. Tales nunca foi jovem! Sempre teve aquela alma carrancuda que arrastou ao longo de sua existência. Ele já se sentiu diferente. Já permitiu sorrisos que hoje não sabe mais onde estão. Deixou-os cair pelo caminho. Abafou cada um deles naquele peito arfante sem razão alguma. Camuflou um a um em forma de versos e os chamou poesia... Ah, se todos soubessem! Todos que conheceram alguma palavra que repousou no papel depois de tê-lo reparado por dentro. Tão denso. Tão complexo. Tão diferente de si mesmo contrariando todas as filosofias existentes. Todas!

A sua audição, o seu tato, todos os sentidos permanentes em Tales sempre foram receptores que funcionaram de forma tão desconhecida. Ninguém nunca entendeu. Assusta. Machuca. Afasta sempre muita gente... Toda a gente. Não resta ninguém. Só o próprio Tales. E tudo isso já serviu, algum dia, de inspiração. Todas as sensações foram transliteradas talentosamente... Talentosamente...

Um talento que, Tales sabe, nunca fora seu. Porque já não o reconhece. Ele já não reconhece a si mesmo. Conhece sim quem está dentro soprando sorrateiramente, minuciosamente a vida que circula por suas veias de sangue já tão sem vigor. Rubor disperso. E, contudo, ele já não sabe mais escrever o que nunca escreveu. Não sabe. Acabou perdendo o que nunca havia encontrado. Perdeu-se. Esqueceu, por fim, o que nunca conseguiu aprender. E não aprendeu de verdade.

Hoje Tales precisou limpar as lentes dos seus óculos tão ultrapassados. Não conseguia enxergar. Tudo era névoa. Tudo estava sujo. Tinha que limpar. Só o lenço não resolveu. Lavou. Sabão, água, enxágüe e secagem. A sujeira ainda ficou. Permaneceu. O sabão não limpou. A água não fez daquilo passado. Tolice! Tales e suas tolices... Unicamente dele. Tolice dele. Só. Não eram as lentes que estavam embaçadas. Eram os seus olhos. E ele não conseguiu perceber. Nem isso, Tales! Não entendeu que seus olhos estiveram enevoados. Durante muito tempo. Todo o tempo. Ainda hoje estão. Ainda agora. Encobertos pelas lágrimas que não nascem. Que não brotam. Que nunca conseguiram existir. Tales não permitiu. Não consentiu. O pranto que não vem mais alimentar os seus versos. Os pensamentos desconexos. Sentimento de abandono. Abandono. Secou tudo. Secou. Até mesmo Tales. Por isso não escreve mais. Acabou o que alimentava a pena. Envelheceu. Sempre fora tão velho. Ficou ainda mais. Sempre foi. Antes, porém, escrevia. Antes fazia versos. Com desesperança. Com entrega. Com ardor. Sofreguidão. Soluços. Espasmos. Com vontade mesmo de transliterar o que era indecifrável. O papel amarelou. O vento soprou o pó estelar que pululava de seus olhos. Foi longe.

Existe ainda a ânsia. A necessidade. A dependência... Ainda há a vontade e Tales quer tanto. Precisa muito. Não dá, elas fogem. Ele caça cada uma com a fome de uma fera. Não as encontra. Não sabe mais onde andam. Onde habitam. Do que se alimentam. Onde se soletram na ciranda mais viva e terna dos poetas. Tales não dança mais nesta ciranda. Nunca dançou. Precisa delas e não mais as identifica. Elas se movimentam. Rápido demais. Ele não... Silêncio. Silencia-se. Quem é mesmo que ele está invocando? A quem chama? Quem é que lhe falta, Tales, além de ti mesmo? Ele já não se lembra...


6 comentários:

  1. Lindo! Gosto muito de te ler! im abração,chica

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  2. Obrigada pelas lindas e gentis palavras deixadas lá no meu humilde cantinho.
    Palavras de um filósofo! Quanta honra!
    Mas tomo coragem e volto e leio estupefata seu texto, assim denso, assim maduro para uma pessoa tão jovem. Pergunto-me seria ele um anjo?
    Só pode ser, pelo gosto de aprender, pelo prazer em saber, por ser amigo íntimo de Sofia, e pela gentileza das palavras.
    Pena que Tales não seja como você. Que tão cedo murchou e envelheceu. Quem tem sede de saber não envelhece, é sempre criança e faz da vida um jardim onde os pássaros vem cantar só tornar seu dia ainda mais belo, como a sinfonia que estou ouvindo agora.
    Obrigada por ter cruzado meu caminho. Eu que já era amiga de Sofia agora serei tua amiga também.
    Abraço
    Angel

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  3. Também sou amigo da Sofia. E a partir de hoje, freguês deste blog. Lindo conto, belo estilo, com frases curtas. Voltarei!!!!! abraço

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  4. Gostei do seu texto ali em cima na cabeça do blogue.
    Depois volto para ler os seus textos.

    Obrigada por ser me seguir.

    Abraço

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  5. Olá meu caríssimo amigo:

    Tales é como eu,serei a face feminina de Tales,a "Taléia" rsrsrs...Bem,trocadilhos ruins a parte (essa foi péssima),diria isto a ele:

    Eu não sei dançar,mas danço...
    Eu não sei cantar,mas canto...
    Eu não sei escrever,mas escrevo...

    Nem preciso dizer do quanto gostei do texto (fabuloso),e do quanto simpatizo contigo né meu querido Whesley!!!

    Um ENORME sorriso de bem-querer só pra ti =)

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  6. Oi Querido olha eu aqui novamente.

    Uma coisa que admiro na filosofia e na poesia é justamente a forma e os trocadilhos escondidos, que geralmente seus autores tem de dizer com palavras maquiadas o que se passa com eles , com sua propria vida ou ate com a vida das proprias pessoas que os cercam, e que de uma certa forma atinge também milhares de pessoas que se identificam em algum ponto com o texto descrito.

    Bem.. A Tantos "Tales" , espalhados por este mundo.
    São pessoas que : Ou nao tiveram uma vida boa, ou que tiveram decepçoes ao longo do caminho, e que por isso se travam dentro de si mesmas.
    Deixando de "Viver", de escrever, de brincar , amar e que se perdem em seu proprio mundinho restrito e fechado.
    "Um Dia" ... quase virei um "Tales"..
    Mais antes que isso acontecesse descobri que:

    Mesmo não sabendo escrever....
    EU ESCREVI
    Mesmo não sabendo Brincar...
    EU BRINQUEI
    Mesmo não sabendo sorrir...
    EU SORRI

    E entao me tornei a Andréia que vem aqui no seu espaçinho e escreve demais kkkkkkkk.
    Me perdoa as divagações..

    Um forte Abraço

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