E pode haver em um único sol

Milhões de horas

Para a poesia que aflora

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Hoje Nunca Mais

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A noite passou em claro. As lâmpadas todas apagadas. A consciência de Maria não desligava. Raios, ventos e trovoadas. Máculas em um céu estrelado. Uma lua tão cheia quanto luminosa. Era a única luz que acarinhava o rosto de Maria. Mesmo por uma minúscula fissura na cortina. Maria não conseguia descansar. Ah, o mau tempo. Acontecia somente em seu espírito. Não havia chuva. Só suas lágrimas. Multiplicavam-se sem jamais se manifestarem. Nada acontecia. Aparentemente. A madrugada crescia. O silêncio era a cada instante maior. Será que só Maria não conseguia desligar? Só Maria via a noite trabalhar? Por uma fresta na cortina. Esgarçada. A cortina e Maria. Quis levantar. Quis dormir. Quis morrer. Quis, enfim, viver. Não como naquele dia. Nunca mais como hoje. Pensou em seus sorrisos. Sentiu saudades. Sempre sentia. Recordou-se das pessoas queridas. Algumas, apenas. Saudades maiores. Vasculhou seu interior. Buscava a paz. Não a encontrou. Hoje não havia nada. Ausência. Mais saudades. Escavou escombros de experiências equivocadas. Sentiu vontade de aprender mais sobre a vida. Não sabia como. Estava sozinha. Sempre. Tantas eram as coisas extintas. Saudades. Tentou ouvir musica. Seus ouvidos acostumaram-se com a ausência. Cada instante mais. Meu Deus, amanhã é dia de trabalho. Espalhar bom dia para tanta gente. Em tantas direções. Por um momento essa idéia assustou. Pareceu uma tarefa árdua demais. Pesada. Impraticável. Hoje é. Onde estão as máscaras que precisará usar? As máscaras! Não há como ir de cara limpa. Nunca. Jamais ninguém a viu sem suas máscaras. Ninguém conseguiu transpor as barreiras. Muralhas que guardavam a verdadeira Maria. Ninguém. A prisioneira Maria. A verdadeira Maria. Fora jogada em um calabouço quando nascida. E esquecida. Nunca mais lembrada. Os ratos trataram de Maria. Os vermes a alimentou. O vazio deu-lhe de mamar. E sua vontade de existir. Prevaleceu. Somente para mostrar que era capaz. A verdadeira Maira cresceu. E nunca ninguém a viu. A noite já era anciã. Seu fim se aproximava a galope. As horas trabalhavam. Incansavelmente. Para matá-la. Para vencê-la. E junto com a noite Maria também agonizou. O céu já era grávido. Á espera do sol. E o sono não soube chegar. Àquele quarto. Perdeu-se. Por onde será que caminhava? Estranho! Suas noites geralmente eram tão tranqüilas. Tão bem dormidas. O que havia acontecido? Nada. Absolutamente nada. Lembranças. Só Maria que já não era a mesma. Nunca mais seria.


12 comentários:

  1. Ola meu caro...

    Foi doído pra mim ler este texto,sufocante,me vi em cada linha...São poucos textos que desempenham o papel de espelhos,e o teu hoje, me fez ver até os poros abertos da pele.
    Estou estarrecida.
    Calo-me.
    É,além daquilo que conseguimos compreender, está um mundo de coisas que não conseguimos explicar.

    Deixo-te o meu silêncio!!!

    =/

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  2. Oi Whesley,

    que belo texto! Deixou-me envolvida nessa História da Maria :)Foi uma linda descrição poética de um processo alquímico.
    São João da Cruz dizia que essas noites são as noites escuras da alma, onde pela putrefação do corpo sai a pedra verde da alma, mas não acho que ele a tenha descrito tão bem.

    Um abraço de força para continuar a ser inspirado pelas sílfides a criar algo tão belo.

    Shin Tau

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  3. Ola!!!
    Simplesmente maravilhoso!!!!
    teus poemas descrevem minha alma...
    vou vir sempre aqui!!
    beijo

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  4. Olá!Desculpe a invasão...fui ao blog da Déia, encontrei o seu comentário e vim...ainda bem que vim...amei!!!

    Sabe aqueles textos que a gente lê e pensa:eu poderia ter escrito,pois este texto sou eu!

    Esta é a magia dos que escrevem:conseguem colocar em palavras sentimentos que não coneguimos falar sobre eles,não com tanta beleza!!!

    Voltarei sempre!!!Seu estilo é tocante!

    Com carinho!Sonia Regina.

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  5. Oi Queridissimoooooooooooooo!!
    Apenas levanto os braços \o/ e bato palmas em pé para você!!
    Mais um texto que descreve o estado de espirito de várias pessoas!!
    Quantos de nós ja nao passamos por isso não é mesmo?
    Noites de Marias, dias de Tales?
    Enfim e é assim que caminhamos!!

    Beijos

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  6. Whesley,

    ganhei um selo que premeia o talento e não hesitei um segundo em lho oferecer! Passe lá no Grimoire para o levar e aguardarei pacientemente o seu texto sobre o assunto que vem com o Selo Lemniscata!

    Um abraço

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  7. ótimo texto. Muito bom teu blog.
    Parabens.
    Maurizio

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  8. Whesley,

    Tive a impressão de que passei a noite toda em claro com Maria. Que belo texto!

    Parabéns!
    Alcides

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  9. Whesley,

    Maravilhoso texto...é de se ler de uma vez, intenso.Emcntrei nele uma Maria que tenho em mim, e todos a temos...

    Beijos e sempre grata e honrada com sua visita,

    REGGINA MOON
    Verso & Prosa

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  10. Wesley,
    Parece que a realidade do mundo atingiu Maria de um modo brutal, fazendo-a desistir dos sonhos
    e usar uma mascara para não ferir-se mais. E como ela quantas de nós já nos sentimos assim, amarguradas e tristes, sem amor, sem vida e sem enxergar o sol que teima em brilhar mas não brilha.

    maravilha seu blog
    bjs

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  11. AS VEZES ME SINTO COM ESSA MARIA...

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